Nitro transforma segurança em cultura do cuidar e zera acidentes com afastamento

Como uma nova narrativa criou significados que deslocaram a percepção de risco e transformaram prevenção em compromisso compartilhado

A sala não parecia ter configuração de treinamento. Cadeiras em círculo, informalidade, nenhuma promessa fácil. Em vez de slides, dinâmicas que mudavam o tipo de conversa que costuma acontecer quando o tema é risco: fotos debaixo da cadeira, gente se levantando para encontrar o “dono” daquela imagem, perguntas que começavam pelo que cada um percebeu antes de chegar ao que cada um precisava fazer diferente.

“Em vez de uma palestra, aquilo ali… A turma saiu encantada”, lembra Francisco Carrara Fava, COO da Nitro, produtora de especialidades químicas. O que surpreendeu foi a leveza — condição para desarmar as pessoas e permitir que abordassem o que o cotidiano empurra para baixo do tapete: excesso de confiança, piloto automático, silêncio.

Entre as dinâmicas, a do ovo ganhou lugar simbólico. Quando algo frágil está em jogo, é preciso dobrar a atenção, a coordenação e a responsabilidade compartilhada. Uma metáfora que se impõe pelo gesto. Houve também rodas de histórias comparando situações em que o padrão não impediu falhas e outras em que a atenção ao outro apareceu como proteção.

O que Carrara descreve é uma virada: do treinamento como obrigação para o encontro como experiência. Atualmente, faz mais de mil dias que a Nitro não registrou nenhum novo acidente com afastamento.

A abordagem

O trabalho de Mauricio Goldstein, hoje sócio da holoflow[1], e de Fabio Betti (sócio da Corall) seguiu princípios da Transformação Gentil — metodologia estruturada de uma jornada e pensada para se sustentar no tempo, com a participação da liderança. Na prática, três movimentos:

  1. Criar uma nova narrativa que deslocasse a percepção de segurança como obrigação técnica para o campo do cuidado com o outro e consigo.

  2. Trabalhar essa narrativa com as pessoas, em experiências desenhadas junto com a liderança, para que o significado fosse vivido antes de ser nomeado.

  3. Sustentar a mudança com rituais, governança e checkpoints que impedissem a organização de voltar à inércia.

O programa Cuidar se estruturou ao longo desse processo. Os consultores trouxeram o conceito; a Nitro se apropriou dele e o transformou em identidade.

[1] Esse trabalho, em particular, foi feito enquanto Mauricio atuava como sócio da Corall

O contexto que tornava a mudança urgente

Em operações industriais como a da Nitro, resultados fortes podem criar o efeito colateral de o perigo parecer mais administrado do que realmente está. Marcos Romanoski, Diretor de Sustentabilidade, SSMA e Relações Institucionais, descreve: “quando você tem menos ocorrências, as pessoas começam a se distanciar da percepção do risco”.

Um acidente gravíssimo em 2021, que provocou queimaduras em cerca de 70% do corpo de um profissional, interrompeu essa sensação de controle. No fim de 2022, ocorreu o último acidente com afastamento (CAF), também grave. A pergunta deixou de ser “como reduzir ocorrências” e passou a ser: como sustentar prevenção quando a rotina pressiona.

A Nitro tinha programas, especialistas e indicadores — mas sistema não é sinônimo de cultura. A segurança era tratada como assunto do SSMA e do chão de fábrica, o que dificultava transformá-la em linguagem de gestão. Carrara resume: “indicador puro e simples vira relatório; só no contexto humano ele faz diferença.”

O cenário era o de um sistema técnico robusto que não havia se convertido em cultura compartilhada.

A narrativa que ressignificou

Mauricio e Fabio sugeriram que o caminho passava por mudar a narrativa para gerar um significado diferente. Mover o modelo mental do cumprimento de norma para a responsabilidade genuína com a vida ao redor.

Renata Serra, Diretora de RH, descreve o momento “eureka”. A palavra cuidar entrou como conceito para reorganizar o que era possível dizer, sentir e fazer — do administrativo ao chão de fábrica, com o mesmo sentido.

“Se eu não estou bem hoje, não tem problema admitir para o meu supervisor. Se meu colega vê que eu não estou bem, ele pode me ajudar. Cada um deve cuidar do outro.” Em ambientes de risco, admitir limite é o comportamento que evita o erro. A nova narrativa deu a esse gesto uma expressão de cuidado, não de fragilidade.

Da experiência à jornada

As dinâmicas descritas na abertura foram desenhadas junto com a liderança da Nitro: cada atividade com uma intenção, cada conversa abria um campo que a rotina costumava fechar. Não era “quebra-gelo”. Era arquitetura de significado.

E numa coincidência que reforça o acerto do caminho, aquele mesmo profissional gravemente acidentado em 2021 voltou justamente na fase dos workshops, compartilhando sua história: as cirurgias, o transplante e a mudança de função. Para quem estava na sala, o relato deu densidade concreta ao significado que o trabalho queria construir.

Romanoski descreve o papel da consultoria: “foi o cimento, a argamassa que conectou as coisas”. Do discurso à decisão, da decisão ao rito, do rito à governança.

Resultados (até fev/2026, data da publicação deste case)

  1. CAF (acidentes com afastamento): redução de 100%

  2. SAF (acidentes sem afastamento): redução de 62,2%

  3. PGSSMA: 98,4% de conformidade em outubro de 2025 — índice estado da arte para a indústria química

  4. ARPT revitalizada, reforçando o “antes de fazer” como antídoto à rotina

  5. 60 líderes treinados em abordagem comportamental

  6. Cuidar no Trânsito com impacto em mais de 400 pessoas

A marca dos mil dias sem CAFs não é tratada como troféu, apenas sinal de que a cultura está viva.

O que sustenta a mudança

Três meses depois dos workshops, líderes, gerentes e equipes operacionais voltaram ao círculo. As conversas passaram do “vamos analisar o acidente” para “como vocês estão”. Surgiram relatos de cuidado que transbordaram a fábrica e impactaram relações familiares. Fóruns com fala mais aberta. Liderança mais presente.

O sinal mais revelador veio das decisões difíceis. Romanoski conta que a escolha passou a ser interromper ou desacelerar quando a condição humana não está boa, mesmo que isso custe atraso. “Do dinheiro a gente corre atrás, recuperar prazo a gente corre atrás. Agora, como você corre atrás da vida de alguém?” É quando o cuidar aparece como critério de trade-off que ele deixa de ser discurso e passa a operar como governança.

“A jornada de transformação gentil que vivemos na Nitro catalizou as ferramentas e processos, que já estávamos implementando, com cultura e comportamento, tocando efetivamente as pessoas. E isso gerou os resultados que tanto buscávamos e uma mudança real e sustentável ao longo do tempo.”

Marcos Cruz, CEO da Nitro

O que ficou

Romanoski resume: cuidar passou a ser um propósito de toda a diretoria. Carrara aponta o sinal visível: a conversa que começa por gente, não por planilha.

“O fundamental que a consultoria nos ajudou a trazer foi essa consciência: eu cuido de mim e cuido de você. Eu não estou aqui apenas para cumprir uma norma ou regra de segurança, mas porque me importo com quem está ao meu lado.” — Carrara

A prevenção não se sustenta só com ferramentas. Ela depende que a liderança abrace essa cultura até que ela passe a proteger a organização mesmo quando ninguém está olhando e isso vai trazer vitalidade para processos e ferramentas.

A palavra “Cuidar” não resolve nada sozinha. Mas quando ela organiza decisões, vira princípio. E princípio, quando funciona, quase não aparece — mas impede que o pior aconteça.

Próximo
Próximo

Novo Nordisk: Transição em umtime que já vencia